Não é de hoje que Hip Hop se transformou em objeto de estudo para teses de graduações, especializações, mestrados e até doutorados.  O tema Hip Hop passou a ser visto além das linhas que antes delimitavam e marginalizam esta cultura tão popular.  Este post colocará a partir de visões diversificadas uma análise desta música procurando desconstruir sua estrutura e significado.  Ao final desta página deixo a letra da música e música cantada em estúdio e ao vivo. O jornalista Bruno Zeni, analisa a letra desta música em seu artigo “O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva”, da seguinte forma: a letra começa definindo uma situação geral, aquela de quem tem “cabelo crespo e a pele escura”: o drama de viver entre o sucesso e a lama é aquele dos negros brasileiros, mais especificamente dos negros das periferias de São Paulo, onde vivem os autores da música. O adjetivo “negro”, anteposto ao “drama”, assume também uma carga qualitativa negativa, mais metafórica – de escuridão, noite, treva –, que, no universo de forte religiosidade em que o grupo vive, traduz o medo da perdição. A terceira pessoa mantém o caráter generalizante da letra, mas a seguir, o “eu” assume voz para falar dessa experiência que é, ao mesmo tempo, comunitária e pessoal, o que o posiciona dentro do contexto que descreve. Edy Rock carrega consigo um trauma: um sentimento de cobrança para não ser mais um “preto fodido” (como dirá a letra mais adiante, ele está “sempre a provar que [é] um homem e não um covarde”). Além desse posicionamento que reflete uma consciência do lugar ocupado atualmente por eles, Racionais, no contexto social brasileiro, a letra compreende também sutis alusões ao processo histórico do país. É preciso estar atento aos dois lados da carnificina promovida no Brasil: “Olha quem morre, então veja você quem mata”. Desde o início, diz Edy Rock, mata-se por “ouro e prata”, o que evidencia a correspondência com a história do Brasil, lugar onde, desde o início da colonização, houve aprisionamento e abate de carne negra e indígena, justificadas pela sede do capital – às vezes, literalmente, sede de ouro e prata, quando da descoberta do ouro nas Minas Gerais, no final do século XVII, mas também antes, durante o ciclo da cana-de-açúcar, e depois, nas lavouras de café, como atualmente na periferia das grandes cidades, segundo dizem os Racionais. A segunda parte da mesma música é cantada por Mano Brown. O rapper introduz a sua fala com algumas palavras que permitem aprofundar a compreensão do que é o negro drama:

Crime, futebol, música / Eu também não consegui fugir disso / Eu sou mais um.

Mano Brown é mais um a protagonizar o drama de quem nasce negro no Brasil: se escapar da lama, resta-lhe o “sucesso” – no crime, no futebol ou na música –, um sucesso que se dá, na opinião dos Racionais, de forma a contribuir com a manutenção do sistema de exclusão.  Mano Brown conta a sua própria história na segunda parte de “Negro drama” e, a certa altura da letra, volta-se, em tom acusatório, a um interlocutor
específico:

      Ei, senhor de engenho / eu sei bem quem você é / sozinho você num güenta /
Você disse o que era bom / e a favela ouviu / uísque, Red Bull, tênis Nike,
fuzil / [...] Seu jogo é sujo / e eu não me encaixo / eu sou problema de
montão / de Carnaval a Carnaval / Eu vim da selva, sou leão / Sou demais
pro seu quintal [...]

O editor Edgard Murano, em matéria redigida a revista Língua Portuguesa, afirma para este trecho da música:

Com “senhor de engenho” (personificação da elite branca), Brown assinala o abismo entre as classes. Ao mesmo tempo, considera-se um ser anacrônico, aquém das novidades tecnológicas. Para isso, vale-se da metáfora do leão, selvagem e indomável, grande demais para o quintal da elite.

Bruno Zeni reforça o trecho afirmando:

De novo, o apelo à raiz histórica brasileira serve para reforçar o estrago contemporâneo da herança colonial e, por extensão, a persistência da lógica escravista. Foi o senhor de engenho quem ensinou a favela a sonhar com os bens de consumo e a cultivar o fascínio das armas. Sozinho, no mano a mano, o rapper sabe que o senhor de engenho não o enfrentaria: a classe dominante precisa da polícia e dos seus mecanismos de alienação. Brown diz que não se encaixa nesse jogo sujo, “ele é problema de montão de Carnaval a Carnaval”. Mais adiante, Brown, ainda dirigindo-se ao senhor de engenho, vai mencionar o fato de a elite e a classe média também escutarem rap: “Inacreditável, mas seu filho me imita [...] Seu filho quer ser preto / Ah!, que ironia!”.

Edgard Murano finaliza afirmando:

Com recursos cinemato­gráficos e literários, embalados pelo “cantofalado” do rap, a dicção de Brown se faz sentir em expressões lapidares e num potencial dramático que não se contenta em só descrever ou aludir. “Eu não li, eu não assisti, eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama”.


Vídeo da música “Negro Drama” gravada em estúdio.


Neste segundo vídeo, encontra-se a música ao vivo . É possível observar a empolgação com que a platéia canta a música mostrando uma identificação com o contexto da letra. Chega a ser vibrante em 3:27 quando Mano Brown começa a declamar seus versos e a platéia o acompanha de maneira intensa.


Este vídeo, que entrou em circulação na internet sem um autor definido, nos traz a reflexão do tripé lançado nessa música por Mano Brown, “Crime, futebol e música”, que para os Racionais MC’s contribuem para a manutenção do sistema de exclusão social.

Fonte:

- Portal Rap Nacional. Música Negro Drama é tema de análise da Revista Língua portuguesa
- Artigo “O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva” de Bruno Zeni

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